Ativista e jornalista, Krenak aborda importância do audiovisual ao manter viva memória dos povos indígenas, além da preservação do meio ambiente

 

Na noite desta quinta-feira (19), o ativista indígena, jornalista e produtor, Ailton Krenak, ministrou a palestra “Cinema e Natureza”, dentro da programação do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica 2020). Krenak falou sobre a importância do audiovisual ao manter viva a memória dos povos indígenas, além de poder ser uma ferramenta que tem a capacidade de mostrar a poética da natureza em uma função educativa.

 

Ailton Krenak elogiou o fato de o Festival ter conseguido se reinventar durante o período de isolamento social e como novas soluções têm sido feitas no momento em que estamos passando. “Vida longa ao Fica”.

 

Durante a palestra, ele fez um paralelo entre a demarcação de terra e o cinema feito por povos indígenas. “É a demarcação da tela”, enfatizou. Para ele, ao ter acesso ao audiovisual, o indígena é capaz de demarcar a diversidade, documentar a história e criar condições de reivindicar seus direitos.  “O cinema vai continuar sendo um importante aliado dessa luta da memória, dos direitos e da arte”, declarou.

 

Krenak lembrou que por muito tempo o cinema foi uma “arte cara” em que os índios eram apenas retratados pelas câmeras e não faziam parte efetivamente das produções. Segundo ele, a apropriação da linguagem cinematográfica por parte dos povos indígenas tem sido feita “de um modo natural”. Foram as experiências em festivais, mostras e encontros que trouxeram as narrativas do cinema para eles.

 

E além de remeter a memória e cultura dos indígenas, introduzir a arte do cinema é também fazer um documentário testemunhal, segundo Krenak. Ele lembra que as mudanças do meio ambiente são retratadas quando o índio tem acesso à produção cinematográfica. “Conseguimos fortalecer a luta do povo indígena, mas também a luta ambiental”, declarou.

 

Ele afirma que o cinema ambiental é eficiente na defesa daquilo que ele se propõe: “convoca uma parte da comunidade para a ação, mas ela ainda é residual”. Para o cineasta, o homem ainda aprendeu pouco em relação ao que tem perdido em sua qualidade de vida.

 

Cinema e natureza

Krenak repassou um pouco da história e das abordagens do cinema ambiental, quando, de acordo com ele, grande obras, ainda das décadas de 1950 e 1960, abriram uma disposição do olhar da paisagem. Para ele, o cinema e o documentário deixam “rastros” que ajudam a enxergar lugares que “estão na sua potência de natureza” e “aqueles que foram modificados de maneira tão brutal”.

 

“Cinema e natureza são uma história sem fim. Pode ser de conhecimento de nós mesmos ou do descolamento do humano com a natureza, quase um divórcio entre a rotina dos humanos e a paisagem que vive”, explicou.

 

Para ele, o cinema ambiental vai além da função educativa: “ele também nos faz sonhar. Nos faz ter esperança em mundo limitado”.

 

Durante sua fala, Krenak ainda discorreu sobre o papel do homem ao “dizimar” o mundo em que vive, como a crise pandêmica e a Covid-19 tem afetado os indígenas, fez um panorama sobre a atual processo de remarcação de terras indígenas e quais são as lições que o mundo poderá tirar com a pandemia.